Apresentação

Há certamente várias maneiras de contemplar as relações entre a literatura e a filosofia. Mas aquela que é o objecto das nossas preocupações tem sido largamente disseminada na filosofia pós-nietzscheana e postula a não-hierarquização entre as duas disciplinas, nenhuma delas reivindicando para si um absoluto do pensamento, poético ou científico.

A ruptura da(s) poética(s) com a tradição da primazia da representação, a partir da segunda metade do século XIX, apresentou-se na criação poética posterior como afirmação da inexistência de géneros ou quaisquer outros constrangimentos dela determinantes e como especulação acerca da condição  paradoxal da instituição literária que daí decorre. Poéticas de grupos literários e poéticas de autores colocaram a partir daí uma necessária relação entre poesia e mundo como questão do fazer sentido na criação de idiomas que, em resistência à opinião abrem passagens da singularidade à universalização. Esse é o movimento das obras de Mandelstam, ou Fernando Pessoa, ou Henri Michaux , ou Herberto Helder, ou Paul Celan, ou Maria Gabriela Llansol, para referir apenas alguns nomes, aquele que abre passagens entre literatura e filosofia.

Com romancistas como Proust, Musil, Herman Broch, Sartre, Blanchot, e em Portugal Virgílio Ferreira, a própria literatura se afirma como espaço de construção de perceptos e afectos que desencadeiam conceptualizações nas quais literatura e filosofia compõem um movimento mútuo de deslocação.

Na filosofia pós-nietzscheana Foucault (com Russel), Deleuze (com Carroll, Kafka ou Melville), Badiou (com Mandelstam, Mallarmé, Beckett e Pessoa), Derrida (com Joyce, Genet, Ponge, Celan, Blanchot) Rorty (com Dickens, Nabokov e Kundera) Rancière (com Wordsworth, Flaubert, Mallarmé) conseguiram, durante a segunda metade do século vinte, dar voz a uma constelação conceptual que não só se alimenta da literatura mas potencia os seus efeitos. Dela surgem questões,  inspirações, esboçam-se conceitos. Formam-se conceitos em andamento, verdadeiras personagens conceptuais, diriam Deleuze e Guattari, que deixam entrever a fulguração dum acontecimento do pensamento. Acreditamos que as grandes personagens da literatura são grandes pensadores e a filosofia não pode prescindir das suas personagens. A filosofia e a literatura são inseparáveis: “são necessárias as duas (…) como se fossem duas asas ou duas barbatanas” (Deleuze).