Silvina Rodrigues Lopes, “A dança das teorias”

O aparecimento de Os Universos da Crítica, em 1982, correspondeu à explicitação na Universidade Portuguesa de uma concepção dos Estudos Literários assente no princípio de uma indiscernibilidade entre experiência estética e pensamento, entendendo-se que “a experiência estética consiste na experiência do resto” (p.17), o que por outras palavras se pode dizer como um excesso da situação, aquilo que não é reconhecível. O resto, aquilo que excede a capacidade de compreensão, é o que se poderá chamar o impensado, a não confundir com o impensável, o inefável. O impensado é o que como tal acompanha o pensado e resiste ao seu fechamento, deslocando-o e deslocando-se com ele. Em Os Universos da Crítica, Eduardo Prado Coelho propõe-se pensar e expor o impensado das diversas teorias que constituem o campo dos Estudos Literários, pondo para tal em evidência o modo como pretendem que os axiomas que as fundam não são simples axiomas mas sim verdades universais justificáveis por razões exteriores e superiores aos territórios que organizam e comandam.

Por essa explicitação, este livro distancia-se do que seria apenas um compêndio, com tudo o que esse nome indica de adequação a uma destinação específica – poupar tempo, abreviar e resumir uma pesquisa -, destinação que tem implícita a negação do ser-escrita de um texto.

É evidente que esse trabalho parte da leitura e do estudo aprofundado daquilo que na sua área, e na área da reflexão sobre as ciências, se lhe apresenta como decisivo. Qualquer das leituras feitas encontra a sua justificação na escrita ao interceder – através de operações conflituais ou de ampliação e desvio – no sentido da abertura dos textos, inesgotável em qualquer leitura. Afastar-se do estatuto de compêndio destinado a encerrar um corpus teórico não é, em Os Universos da Crítica, abandonar a pedagogia – é abandonar uma certa pedagogia, aquela que, estabelecendo que há um lugar do saber, se propõe proporcionar a outros o acesso ao caminho infinito para esse lugar. Assim, diz-se expressamente que “a prática pedagógica da literatura” deve ser entendida “não enquanto fixação de uma verdade cultural mas enquanto alargamento do campo de sentidos, das áreas de sensibilidade e de interacção comunicativa” (p.17). Esta declaração sobre o entendimento da pedagogia da literatura rompe com a administração dos textos como objectos e propõe-se integrar a relação com eles numa pragmática poética que enquanto tal se distancia de dois polos que efectivamente se encontram na negação do impensado dos textos através da circunscrição ao fechamento histórico, o contexto, ou à manifestação do absoluto, impensável. Estes dois polos são: 1. A filologia enquanto suposição de acesso à Verdade dos textos, seja ela historicamente dada (objectiva) ou inefável); 2. O paradigma comunicacional, como suposição de uma intersubjectividade que controla a inscrição dos textos em diferentes horizontes históricos em que encerra a comunidade dos humanos ao reduzi-la a uma identidade. A aproximação dos polos surge com bastante frequência. Cite-se um exemplo: “(No espaço do projecto filológico) qualquer operação por mais modesta que se pretenda , é uma aproximação do Todo configurado no horizonte do projecto. E é por isso que, não apenas a retórica que acompanha a estratégia filológica, como também a que se encontra em propostas de tipo estilístico ou hermenêutico, oscilam continuamente entre a segurança positivista do conhecimento e o êxtase perante a grandeza do Todo, entre a ciência e Deus, entre o rigor da letra e a desmesura da Beleza.”(p.306)

É interessante verificar que o paradigma filológico é aquele que aparece como a doença mais grave e incurável dos Estudos Literários, desde logo pelo seu lugar na institucionalização dos mesmos.

Cito: “Considera-se que, pela articulação entre o trabalho crítico e a instituição universitária, existe uma necessidade de aparência científica e de simulacros de rigor, propícios aos mecanismos de avaliação e de selecção, que reconduz regularmente os estudos literários para o campo filológico” (p.17).

Face a esta verificação impõe-se não só torná-la explícita e devidamente justificada, mas também, ou sobretudo, contrariar essa tendência no próprio trabalho académico.

Os Universos da Crítica apresenta uma investigação sobre a organização e transformação das ciências e aplica-a à análise e descrição dos Estudos Literários. Resulta daí a repartição destes por diferentes paradigmas coexistentes, embora o seu aparecimento seja historicamente situado. A descrição acentua em especial o modo como em cada paradigma se manifesta a auto-ameaça imanente à construção de um objecto de estudo ao qual se atribui e retira autonomia. O que implica que em cada paradigma dos estudos literários aquilo que o põe em crise revele também algo nele que o desloca para fora de si: tanto filologia como hermenêutica são conduzidas a um combate pelo rigor e prudência da leitura que, quando se não deixa limitar pelo desejo do Mesmo, as põe em causa. Em cada paradigma, métodos e conceptualizações ajustam-se a ideias de literatura mais ou menos explícitas. Embora de modos diferentes e em sentidos diferentes, a literatura é sempre considerada como um objecto estranho – a filologia arroga-se o poder de indicar a estranheza e de a transmitir como tal; os estudos comunicacionais indiferenciam-na pela redução àquilo que consideram o comum. É nos estudos metapsicológicos que Eduardo Prado Coelho  encontra uma proposta de resistência à anulação ou controlo do estranho, que se traduz em haver sempre um resto, em haver sempre no dito o que se não diz, cinza. Daí que a crítica enquanto texto que se escreve na relação com um texto que se elege para sobre ele reflectir, a crítica, dizia, não pode senão assumir-se como pragmática poética em que o desejo de conhecimento e o desejo de arte se articulam num combate sem fim e por conseguinte sem vencedor. Sem fim, porque: 1. Não se coloca no horizonte de um juízo final, de um conhecimento absoluto, ou de uma obra; 2.traça aproximações e distâncias que não existem senão nessa construção. Um tal combate é como uma dança.

O título deste texto,  “A dança das teorias”, pretende assinalar que, no seu combate ao fechamento, Os Universos da Crítica multiplica teorias, conjecturas, sem que a atitude contemplativa rasure a contingência do gesto da escrita. Pelo contrário, tal movimento só faz sentido na afirmação desse gesto: através dele, como numa dança, o escrever, que é também escrever-se, é abandono de qualquer vontade de imposição de um saber, de qualquer vontade de monumentalização.

Quando uma teoria abandona a pretensão de se fixar como forma-matriz das descrições de parcelas de realidade e com ela a de determinar as suas potencialidades de transformação desta, ela divide-se em múltiplas linhas de composição de movimentos, manifestando o impulso de romper com o aprisionamento da existência. Essa saída-da-forma (formatura) não se dá sem exercícios que dão forma, ela desencadeia-se neles como passagem, travessia, na sequência da qual fica uma memória dispersa, que retorna sempre de outro modo.

Eduardo Prado Coelho partilha uma concepção da metáfora, entendida não no sentido retórico, mas no de operação que des-satura a representação.  A metaforicidade é assim condição da literatura e de todo o pensamento, movimento de deslocação do sentido no desfazer da situação, situação essa que tende sempre a estabelecer os lugares do que é próprio e do que é impróprio. Há metáfora sempre que essa oposição é abalada, não deixando no entanto de existir por condição da força poética da linguagem. O abalo é o excesso ou a afirmação que propriamente se não diz, mas se inscreve na escrita como potência de um escrever, potência de uma vida para além do seu tempo finito.

Em Os Universos da Crítica, a metáfora participa da contrariação do sistemático. Através dela, o impulso de conhecimento que conduz à classificação e integração em universos consistentes é sempre duplicado, e como tal deslocado, pelo movimento que busca e força rupturas, muitas vezes assinaláveis por frases ou expressões que se exibem como intromissões intempestivas do quotidiano da existência. Trata-se sempre de encontrar procedimentos de fuga à saturação dos discursos e das suas imagens.  Assim, a par de uma investigação académica sistematizadora, a composição sempre contingente de Os Universos da Crítica recorre a elementos heteróclitos num procedimento que podemos caracterizar como bricolage, num sentido próximo do que é dado a este termo por Lévy-Strauss em La Pensée Sauvage. Embora, e o que é importante, aqui deixe de fazer sentido a limitação que Lévy-Strauss coloca ao bricolage, a qual seria decorrente “da história particular de cada peça (e do) que nela  subsiste de pré-determinado, devido ao uso original para o qual ela foi concebida”. Em Os Universos da Crítica, o recurso aos textos que estão à mão –  “à mão de semear” diga-se, salvaguardando o “nem-tudo” daquilo que se faz germinar – não os transporta como objectos idênticos, mas parte já da compreensão de que aquilo a que se chama “um original” só existe na repetição que o difere, e como tal o combate, na sua reescrita, na leitura-escrita. Há em Eduardo Prado Coelho uma assunção da relação entre escrita e leitura, através da qual se indica, não apenas que uma se constitui pela outra, mas que uma é o passo para a outra.

Da compreensão da ausência de original decorre a assunção do jogo na crítica, ou seja, a assunção do acaso como manifestação de impensado, e consequentemente de exigência de pensamento. Esse jogo passa-se no terreno frágil da existência, entre filosofia e literatura, que suporta Os Universos da Crítica: trata-se de pôr em causa a autonomia de uma e de outra, de uma pela outra, com base na ficcionalidade imanente ao uso da linguagem: não há pensamento exterior à ficção, isto é, à construção de uma forma, a qual nunca é o contentor adequado de um conteúdo. O filósofo-artista e o artista-filósofo são duas figuras da relação entre arte e pensamento que desenquadram, quer a arte, quer o pensamento, da instrumentalização autoritária para que a vontade de domínio os empurra.

Não há verdade exclusivamente discursiva, assim como não há verdade da imaginação espontânea. O fazer-sentido supõe a composição do discursivo e do imagético num movimento de devir-outro que é simultaneamente fuga ao dispositivo objectivista-subjectivista e à indiferenciação mística.

Trata-se “de deixar de pensar em função da unidade”, nos termos exactos em que Eduardo Prado Coelho, num comentário a Blanchot, coloca esse desígnio: «precisamos de “pensar o Outro, de falar em nós em relação ao Outro, sem referência ao Um, sem referência ao Mesmo” (…). Assim, “o que ‘fundamenta’ a relação, deixando-a não fundamentada, já não é a proximidade, proximidade de luta, de serviços, de essência, de conhecimento ou de reconhecimento, até de solidão, é a estranheza entre nós: estranheza que não basta caracterizar como uma separação, nem mesmo como uma distância” (…) – mas, sim, como uma interrupção, isto é, uma separação infinita. O que daqui resulta é, por um lado um processo em que o homem se afasta de si próprio (…). E este afastamento é, também aqui, uma lição de impoder: “Isto quer dizer que esta distância representa o que, do homem ao homem, escapa ao poder humano – que pode tudo. Lá onde o meu poder cessa (…), aí se designa essa relação que o puro vazio na palavra fundamenta”. Significa isto que estamos perante uma relação não intersubjectiva (paradigma comunicacional), mas algo que se situa para além da relação de sujeito a sujeito ou de sujeito a objecto. “Quando outrem me fala, ele não me fala como eu. (…). Entre o homem e o homem, há um intervalo que não será nem de ser nem de não ser, e que transporta a Diferença da fala, diferença que precede  qualquer diferente e qualquer único” (…) ( p. 496)».

A concluir: sendo a importância decisiva de Os Universos da Crítica nos Estudos Literários a de abandonar o pensar em função da unidade, isso traduz-se na inseparabilidade – na separação – de teorização e crítica. Ou seja, no que tal implica de permanente crítica da crítica como condição do haver crítica: exigência de lucidez, em que à dimensão de justificação, argumentação (de qualquer leitura, verificação ou proposta) se reúne a consciência da sua incompletude, o que corresponde a dar a palavra ao outro.